domingo, 8 de outubro de 2017

Livro de Marco Haurélio é finalista do Prêmio Jabuti



Cordéis de arrepiar é uma coleção da editora IMEPH, de Fortaleza, criada por Arlene Holanda e coordenada por ela e pelo poeta Rouxinol do Rinaré. Reúne contos e lendas populares da tradição oral de vários povos nos quais predomina a temática do medo e do sobrenatural. Os primeiros volumes, África América, foram escritos por Rouxinol do Rinaré e seu irmão, Evaristo Geraldo, e ilustrados por Edu Sá. O terceiro volume, com contos disseminados pelo continente europeu, numa vasta área que vai da Irlanda à Rússia, conta com três textos do poeta e pesquisador da literatura popular, Marco Haurélio. Esta inusitada coletânea está entre as dez obras finalistas ao Prêmio Jabuti 2017 na categoria Adaptação.

Teig O’kane e o Cadáver é um conto sobrenatural que William Butler Yeats (1865-1939), poeta e coletor das tradições populares de seu país, a Irlanda, incluiu na coletânea Fairy and Folk Tales of the Irish Peasantry (Contos de fadas e folclóricos da Irlanda rural). A presença dos anões transportando o cadáver é o traço cultural celta mais evidente. É preciso ressaltar que a palavra fada, que remete, em latim, ao destino, fatum, se aplica aos anões, verdadeiros agentes da transformação por que passa o protagonista em sua jornada noturna. A estrofe inicial já remete à prova a que se submeterão protagonista:

Quem anda na senda escura,
Com passo ligeiro ou tardo,
Terá de levar um dia
Da vida o pesado fardo
E, após mirar o rival,
Sentir em si mesmo o dardo.

História do Filho Ingrato é um conto de exemplo que aparece em coletâneas europeias antes do século XIV, conforme Bráulio do Nascimento (Estudos do conto popular. Em sua versão mais famosa, o filho expulsa o pai de casa, oferecendo-lhe apenas uma manta para que se cubra. O filho ainda pequeno do ingrato pede ao avô a manta, divide-a no meio e diz ao pai que guardará aquela parte para quando chegar vez dele. O motivo, corrente na tradição oral do Brasil, inspirou um clássico da música sertaneja, “Couro de boi”, composto por Teddy Vieira. O conto adaptado para o cordel foi recolhido na Alemanha pelos Irmãos Grimm, que o publicou em sua coletânea Contos da criança e do lar.


Marúsia e o Vampiro é conto de horror mesclado a elementos de narrativas maravilhosas, a exemplo do episódio da morte e renascimento da heroína, presente em inúmeras histórias, a mais antiga delas “Os dois irmãos”, conto egípcio de mais de três mil anos. O vampiro do conto de que nos servimos, coletado por Aleksandr Afanas’ev (1826-1871) e incluído nos Contos de fadas russos, difere do personagem massificado pelo cinema a partir do romance gótico Drácula, do escritor irlandês Bram Stoker, publicado em 1697. Os povos eslavos (búlgaros, montenegrinos, bósnios, sérvios etc.) conheciam muitas classes de vampiros, mesmo antes da conversão de muitos deles ao cristianismo ou ao islamismo. A origem da crença em vampiros é obscura, mas se enquadra no medo ancestral incutido pelo possível retorno de um defunto que, para conservar uma ilusória sobrevida, se alimentava de fluidos vitais.

Autor: Marco Haurélio
Ilustração: Edusá
Edição: 1ª
Valor: R$ 40,00
Formato: 18 x 24 cm
Número de páginas: 40
ISBN: 978-85-7974-316-0

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Cordel encanta Serra do Ramalho


Desde o dia 23 de junho, o município de Serra do Ramalho, localizado no Médio São Francisco, sertão da Bahia, viveu uma efervescência cultural como havia muito não se via por estas bandas. Na véspera e no dia de São João, foi encenada a cavalhada na comunidade de Agrovila 07, no pátio da igreja, com a recriação das batalhas entre mouros  e cristãos na Península Ibérica, tendo como protagonista o imperador Carlos Magno. Na cavalhada teatral, o maior auto popular a céu aberto, os partidos cristão (azul) e mouro (encarnado) lutam pela honra e pela princesa Angélica, filha do rei da França. Em Serra do Ramalho, o evento acontece, principalmente, pela força de vontade de José Carlos, que interpreta o rei mouro, e é mestre da cultura popular. O rei cristão é interpretado por Ismael.
 
 
Nos dias 25 e 26, na Escola Castro Alves, foram realizadas as oficinas de cordel, com presença dos professores e demais interessados. O ministrante foi o poeta popular, escritor e pesquisador da cultura popular brasileira Marco Haurélio, que, durante mais de 15 anos morou em Serra do Ramalho, cidade para onde se mudou ainda criança, na década de 1980. No segundo dia, a oficina teve o reforço de dois outros poetas participantes do projeto Cordel: a poesia encantada do sertão: Rafael Neto e Zeca Pereira.

 
No sábado, dia 27, às 10 da manhã, foi inaugurada a cordelteca Antônio José dos Santos (Tio Tony), homenagem ao grande divulgador da poesia popular em Serra do Ramalho, morto precocemente em 2014. Tio Tony era poeta e radialista e estava escalado para participar, como declamador, no nosso projeto. A família do poeta, representada por suas irmãs Clarice, Maria, Ana e pela sobrinha Cláudia, prestigiaram a homenagem. A cordelteca, que agora faz parte da Biblioteca Municipal Arcélia Alves de Barros, traz títulos de autores clássicos e contemporâneos, incluindo obras dos autores que participaram do projeto: Marco Haurélio, José Walter Pires, Rafael Neto e Zeca Pereira.

À noite, ainda no dia 27, ocorreu a culminância do projeto, o Encontro Sertanejo de Cordelistas, no Centro de Treinamento de Líderes (CTL), com a participação dos poetas populares e boa presença de público. Cordel, repente, aboios e causos fecharam com chave de ouro uma jornada inesquecível.

Os depoimentos de dois participantes do projeto, o professor Rogério Soares e o poeta José Walter, não deixam dúvidas.
"Sábado, 27/06, em Serra do Ramalho, município localizado nas barrancas do Velho e agonizante São Francisco, a 300 Km de Brumado, no Encontro de Cordelistas, evento produzido por Itamar Mendes, merecedor de aplausos por tudo de bom que lá aconteceu, reunindo Cordelistas, outros poetas, com destaque para o poeta da terra Marco Haurélio, nome que brilha no cenário nacional como um respeitado pesquisador do cordel, além do poeta com inúmeras obras publicadas, a presença do poeta Zeca Pereira, o andarilho do cordel, o repentista de Paulo Afonso, Rafael Neto e este poeta aprendiz, que escreve estas linhas, com apresentações na Biblioteca Municipal da Cidade, na manhã e á noite no espaço do CTL, com o brilhantismo das declamações, sobretudo, do poeta Rafael que brindou o público presente com os seus repentes, causos, histórias que encheram a noite amena de muita alegria. Retornei feliz com a receptividade, com a minha participação entre esses renomados poetas e carregado de indagações a respeito da nossa cultura. Só quem corre risco, que viaja, que conhece outros poetas, escritores, que enfrenta críticas, que foge aos estreitos limites da arte que produz, poderá dimensionar o seu valor literário em um cenário onde pontilham estrelas verdadeiramente luminosas. E aqui cabe lembrar o nosso vate maior, o poeta condoreiro, quando profere com os seus arroubos de vaidade: " Sou pequeno, mas só fito os Andes/Sou cego, mas só peço luzes". Salve o cordel encantado! Salve a cultura sertaneja! Salve Serra do Ramalho, que pode contar com o idealismo de uma pessoa como Itamar Mendes e possuir nas suas entranhas um poeta da estirpe de Marco Haurélio de quem tenho a honra de merecer a estima e amizade. Sei que o meu amigo Rogério, de Caetité, fará novas publicações como o seu profissionalismo e zelo pela arte fotográfica."

José Walter Pires, poeta cordelista

"Serra do Ramalho é um celeiro de manifestações populares. Entre os dias 23 e 24 de junho é realizado na Agrovila 07 o Auto a céu aberto da Cavalhada. Esse teatro mostra a conversão dos mouros pelos cristãos em uma encenação de cores e muita destreza equina. O enredo da festa é tomado de empréstimo do livro Carlos Magno e Os Doze Pares da França. Abaixo algumas fotos que tive a oportunidade de fazer durante a celebração popular. Fica aqui o meu agradecimento aos colegas Marco Haurélio, Lucélia Pardim Guarani Kaiowá e Itamar Mendes que este ano me convidaram para assistir o folguedo popular. De vermelho o rei mouro, de azul o rei cristão."
Rogério Soares de Brito, professor,  orientador pedagógico do projeto “Cordel: a poesia encantada do sertão”

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Boas-vindas!


A Literatura de Cordel é uma das mais genuínas manifestações da cultura popular brasileira. Sua influência está presente em muitas manifestações artísticas, entre elas o teatro e o cinema. Foi com base na literatura de cordel que Ariano Suassuna escreveu a peça Auto da Compadecida, que vertida para o cinema, foi um grande sucesso. O cordel chegou ao Brasil via Portugal, e se estabeleceu na Região Nordeste, onde ganhou feição própria. A Bahia sempre foi um grande produtor de cordel desde os tempos de Rodolfo Coelho Cavalcante, Minelvino Francisco Silva, João Damasceno Nobre, Antônio Teodoro dos Santos, Antônio Alves da Silva, Cuíca de Santo Amaro e Bule-Bule, até os tempos atuais, em que surgem nomes de destaque, como Antônio Barreto, Jotacê Freitas, Zeca Pereira e Marco Haurélio.

No Brasil, o cordel ganhou feição própria, com os romances do ciclo do boi e as histórias de vaqueiros intrépidos, beatos e cangaceiros. Os romances de cavalaria, no entanto, inspiraram clássicos do gênero, como A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, de Leandro Gomes de Barros, e Roldão no Leão de Ouro, de João Melchíades Ferreira da Silva, textos do chamado ciclo de Carlos Magno, personagem histórico abraçado pela cultura popular do Brasil e de Portugal. Esta interface da cultura popular alimentada pelo cordel está presente na chamada cavalhada teatral, encenação a céu aberto de um auto tradicional que rememora as batalhas travadas entre mouros e cristãos.

A prática poética do autor de cordel, que é ao mesmo tempo oral e escrita, incorpora princípios de um conhecimento poético tradicional, com a métrica e a rima obedecendo a padrões já bastante conhecidos, usualmente com versos de sextilhas, setilhas ou décimas. Por ser uma criação literária individual, mas voltada à temática de interesse coletivo e pelo número elevado de exemplares impressos, o cordel atrai um grande número de pessoas, realizando o nobre papel de alfabetizar cidadãos, e ainda promovendo o hábito da leitura, bem como irradiando cultura.

O projeto Cordel: a Poesia Encantada do Sertão, por meio das diversas ações como formação, exposições, mostras, debates, formação da cordelteca e do Encontro Estadual de Cordelistas, enfocará todas as faces da poesia popular, ressaltando a relevância do cordel para a cultura do nosso município, estado e país. Para o município de Serra do Ramalho, que agrega tradições culturais como o reisado, cavalhadas, samba de roda e dança de São Gonçalo, a atividade será de grande importância para a afirmação da identidade cultural de seu povo, em grande parte oriundo da região atingida pela construção da barragem de Sobradinho, em meados da década de 1970. 

Coordenação geral: Itamar Mendes, Lucélia Borges e Silmária Ferreira.