segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Romance de cordel remete a clássico da literatura



História de Belisfronte, o Filho do Pescador (Editora Luzeiro), um dos grandes textos da moderna literatura de cordel, de autoria de Marco Haurélio, traz ecos com conto de Apuleio, Eros e Psiquê, que integra O Asno de Ouro (século II a.C.).

Peço às deusas que habitam
O Reino da Poesia
Que venham em meu auxílio
Dando-me sabedoria,
Para versar uma história
De fé, encanto e magia.

Onde a Fortuna sorri
A quem é merecedor,
Por isso narro este drama
Sobre um moço de valor:
A História de Belisfronte,
O Filho do Pescador.

Em um longínquo país
Habitava um camponês
Ao lado de sua esposa –
Os seus filhos eram três:
Eram pobres ao extremo,
Não tinham voz e nem vez.

Aquele pobre campônio
Sempre viveu do roçado,
Mas agora o que plantava
Não dava mais resultado;
Como se a Providência
Lhe houvesse abandonado.

Isto porque a semente
Que na terra ele lançava
Em forma de alimento
Ela jamais retornava
E a fome, cruel flagelo,
Toda a família assolava.

O velho então resolveu
Tornar-se um pescador,
A profissão de São Pedro,
Discípulo do Salvador,
Pensando em pôr fim àquele
Quadro desalentador.

E, assim, foi para o rio,
Munido de rede e anzol.
Disse: - Peixe nunca falta,
Faça chuva ou faça sol,
Os ribeiros estão cheios,
Do crepúsculo ao arrebol.

Pacientemente, o velho
Lá ficava todo o dia,
Até que o manto da noite
Aquele vale envolvia,
Mas, para surpresa dele,
Nenhuma piaba havia.

Pouco a pouco o desespero
Ia a esperança minando,
Com o aguilhão da miséria
O pobre velho açoitando.
Ele, então, olhou o Empíreo
E assim foi suplicando:

— Oh, Deus, Pai da humanidade,
Olhai este penitente
A quem a Sorte mesquinha
Mostra-se indiferente!
Enviai um lenitivo
Para meu tormento, urgente!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Literatura de Cordel: tradição e contemporaneidade


Por Marco Haurélio 

A literatura de cordel que imperou no Nordeste, em fins do século XIX até o terceiro quartel do século XX, é, em linhas gerais, a poesia popular impressa e herdeira do romanceiro tradicional, da literatura oral (em especial dos contos populares, com predominância dos contos de encantamento). O cordel é um dos galhos da árvore da poesia popular, como o repente também o é. Mas cordel e repente não são a mesma coisa, pois, à medida que a árvore cresce, os galhos vão se distanciando, embora estejam unidos pela origem comum. Grandes repentistas se aventuram pelas sendas do cordelismo, a começar por Silvino Pirauá de Lima (1848-1913), um dos pioneiros da literatura popular, autor dos clássicos O Capitão do Navio e Zezinho e Mariquinha.

Outros poetas que transitaram por ambas as sendas foram José Galdino da Silva Duda, José Vila Nova (pai do famoso Ivanildo), Natanael de Lima, Severino Borges Silva, entre outros grandes nomes já falecidos. Entre os vivos, vale citar José João dos Santos, o Mestre Azulão – paraibano radicado no Rio de Janeiro, um dos fundadores da feira de São Cristóvão - e Antônio Américo de Medeiros, potiguar estabelecido em Patos, Paraíba. Repentistas que se aventuram com sucesso pela literatura de cordel, apesar de raros nos dias atuais, existem. E gente do primeiro time: Geraldo Amâncio Pereira, apresentador do programa televisivo Ao Som da Viola, pela TV Diário; Sebastião Marinho, presidente da União dos Cordelistas, Repentistas e Apologistas do Nordeste – UCRAN, sediada em São Paulo; e Zé Maria de Fortaleza, para ficar em alguns poucos mas significativos nomes.Então, tiremos de uma vez por todas a dúvida: repentista não é cordelista, e cordelista não é repentista. Repentista pode ser cordelista, e vice-versa. Mas não é regra.

Quando a literatura de cordel, ou de folhetos, estava engatinhando e tomando forma, no tempo do poeta maior Leandro Gomes de Barros (1865-1918), viviam, na região do Teixeira, Paraíba, afamados cantadores, como Inácio da Catingueira, Romano da Mãe d’Água e o próprio Pirauá. Havia uma presença mais marcante da oralidade, pois, nesse tempo, eram poucos os alfabetizados. Mas, nas raras horas de ócio, as pessoas se reuniam em torno de alguém que soubesse ler, e se deleitavam com os romances fenomenais do Mestre Leandro: O Cachorro dos MortosOs Sofrimentos de AlziraA Força do Amor, O Boi Misterioso. Outros poetas surgiram, alguns geniais. A edição e comercialização da literatura de cordel atingiram um alto grau de profissionalismo com João Martins de Athayde, poeta paraibano estabelecido no Recife, e com Francisco Lopes, pernambucano levado pela onda migratória a Belém do Pará, onde dirigiu a lendária Guajarina. Outros editores que aperfeiçoaram o comércio do cordel foram José Bernardo da Silva, sucessor de Athayde, em Juazeiro do Norte, João José da Silva, com a Luzeiro do Norte em Recife e Manoel Camilo dos Santos, que pontificou entre Guarabira e Campina Grande.

Outros nomes dignos de nota são José Alves Pontes (Guarabira), Joaquim Batista de Senna, paraibano que fez história no Ceará, e Manoel Caboclo, estabelecido com sua folhetaria Casa dos Horóscopos em Juazeiro. Em São Paulo desde os anos de 1910 existia a Tipografia Souza, fundada pelo imigrante português José Pinto de Souza. Em 1950, desta tipografia surgiu a Editora Prelúdio, já dirigida pelos irmãos (adotivos) Arlindo Pinto de Souza, filho de José, e Armando Lopes. Dois anos depois, a editora publicaria seu primeiro cordel no formato que a consagrou, com capa em policromia e tamanho maior que o nordestino (13,5X18). Era um romance chamado O Amor que Venceu, de Antônio Soares de Maria. Um dramalhão muito ruim, diga-se. No mesmo período, o ex-garimpeiro e poeta popular Antônio Teodoro apresenta alguns originais à editora. Teodoro escrevia sobre tudo, para todos. Seu cordel Vida e Tragédia do Presidente Getúlio Vargas, de 1954, escrito após o suicídio de Getúlio vendeu, na primeira edição, impressionantes 260 mil exemplares. Começa o período áureo da literatura de cordel fora do Nordeste.

Entretanto o tempo, os problemas econômicos, o êxodo rural e a escassez de bons poetas, após a geração que vai até a década de 1940 (Eneias Tavares dos Santos, João Firmino Cabral, Manoel Monteiro, João Lucas Evangelista, Mestre Azulão, Cícero Viera, entre outros) fizeram com que as trombetas fúnebres, na década de 1980, decretassem a morte do cordel. A Editora Luzeiro, sucessora da Prelúdio, foi a única a sobreviver às crises e seguiu imprimindo os clássicos do gênero sob a orientação abalizada de Manoel D’Almeida Filho. Em 1990, Arlindo Pinto vende a editora à firma dos Irmãos Nicoló, e a Luzeiro passa por um período de dificuldades, no mesmo período em que morre Manoel D’Almeida Filho, amargurado ante o futuro incerto da editora e da própria literatura de cordel. Hoje, Gregório Nicoló é o único proprietário, e a Luzeiro, superando os problemas, renova as suas publicações, mantendo os títulos tradicionais, ainda com boa aceitação popular.

Nos anos 1990, surge no Ceará uma nova geração de talentosos poetas populares, capitaneada por Klévisson Viana, que fundaria a Editora Tupynanquim, em Fortaleza. Klévisson, juntamente com seu irmão Arievaldo Viana, Rouxinol do Rinaré (nome de guerra de Antônio Carlos da Silva), Evaristo Geraldo, José Mapurunga e outros valores daquele estado restituíram à Fortaleza a tradição que teve nos poetas editores Moisés Matias de Moura, Luís da Costa Pinheiro e Joaquim Batista de Sena, firmes baluartes tempos atrás. No Rio de Janeiro, Gonçalo Ferreira da Silva, cearense de Ipu, poeta com raízes eruditas e populares, concebeu e deu vida à Academia Brasileira de Literatura de Cordel, a ABLC, em 1988. Na ata de fundação, nomes históricos da literatura de cordel emprestam seu prestígio à entidade. A Academia acabou se fundindo com a Casa de Cultura São Saruê, criada pelo General Umberto Peregrino, e incorporou ao seu acervo preciosidades hoje à disposição de estudiosos e entusiastas do cordel. Outras entidades espalhadas pelo Brasil continuam a luta encampada por Rodolfo Coelho Cavalcante (1918-1986), maior liderança da história do cordel, responsável pelo Primeiro Congresso de Trovadores e Repentistas, de 1955.

Os maiores sucessos são os eternos clássicos O Pavão Misterioso (José Camelo de Melo Resende), A Chegada de Lampião no Inferno (José Pacheco), As Proezas de João Grilo (João Ferreira de Lima) e A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum (Firmino Teixeira do Amaral). Lampião é a personagem histórica de maior projeção, e sua popularidade resiste à era digital. O maior romance ainda é O Direito de Nascer, de Manoel D’Almeida Filho, com 719 sextilhas. No formato livro, ressalve-se. É nesse formato que o cordel está chegando a um outro público, além do tradicional. Em São Paulo, neste 2008, a editora Nova Alexandria lançou, sob minha coordenação, a Coleção Clássicos em Cordel, com releituras de obras clássicas por cordelistas respaldados. Já foram impressos O Corcunda de Notre-Dame, de João Gomes de Sá, e Os Miseráveis, de Klévisson Viana. Ambas adaptações de obras famosas do escritor francês Victor Hugo. Outros títulos estão a caminho.

João Acaba-Mundo e a Serpente Negra, de Minelvino Francisco Silva,
cordel clássico com capa em policromia, assinada por Mateus (19
59).
Ilustrações A ilustração não nasceu com o cordel. Antes eram usadas as chamadas “capas cegas”, sem qualquer ilustração. A xilogravura é um fenômeno relativamente recente, apesar de ter sido usada em 1907, na ilustração de uma capa de um folheto de Francisco das Chagas Batista enfocando Antônio Silvino. Fato isolado. Os desenhos e os clichês de cartões postais e com fotos de artistas de Hollywood eram os preferidos dos editores, a começar pelo lendário Athayde. A xilogravura nunca teve ampla aceitação no meio popular, mas a Academia a adotou como a ilustração por excelência dos folhetos de cordel. A bem da verdade, diga-se: a xilogravura é a ilustração mais característica, mas não a única. A essência de um bom cordel está no texto e não na capa, no vestuário. O cordel (texto e ilustração) evoluiu, e nenhum poeta ou editor antenado abre mão da tecnologia para oferecer ao público edições bem cuidadas. Sem esquecer a tradição, sem desprezar a modernidade. O cordel, por conta disso, chega vivo e com fôlego ao século XXI.
O Padre Jogador, editado por Leandro Gomes de Barros.
Nota: Texto publicado originalmente em junho de 2008. 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tupynanquim Editora lança peleja reunindo dois grandes expoentes do cordel

Capa do livreto com xilo de Maércio Siqueira

A título de informação


Por Marco Haurélio

Pelejas virtuais não são incomuns em tempos de redes sociais e de serviços de mensagens instantâneas. Braulio Tavares, por exemplo, já havia contendido com Klévisson Viana e Astier Basílio. As várias modalidades foram debulhadas em trocas de e-mails, portanto, ainda sem a presença de uma “plateia”. Não parece, mas disputas do tipo vêm de longe, desde 1997, quando Américo Gomes, da Paraíba, e José Honório, de Pernambuco, desfraldaram a bandeira. Há inclusive uma pesquisa ampla, um inventário transformado em tese de doutoramento e em livro, com o inusitado título No Visgo do Improviso ou a Peleja Virtual entre a Cibercultura e Tradição, de autoria da professora Maria Alice Amorim.

O diferencial desta nova peleja é que o palco foi a maior das redes sociais, o Facebook, entre os dias 7 e 14 de setembro, nos poucos minutos de folga de que dispúnhamos. E, como em todo bom pé-de-parede, a nossa gesta virtual foi acompanhada por um grande público, com sugestões de temas e motes e eventuais aplausos. Começamos com a tradicional sextilha, evoluímos para o martelo agalopado, com mote proposto pelo poeta, pesquisador e apologista Ésio Rafael, passamos à gemedeira, por sugestão do também poeta Rouxinol do Rinaré, e ao galope à beira-mar (versos hendecassílabos). A disputa abarcou ainda outras modalidades: No tempo de Pai Tomás, Preto Velho e Pai Vicente, Nos oito pés a quadrão (oitavas), martelo alagoano (decassílabos). Os versos de despedida foram embalados pelo mote Povo bom, muito obrigado/ Adeus, até outro dia!

Agora publicada em folheto pela Tupynanquim Editora, de Klévisson Viana, com capa em xilogravura de Maércio Siqueira, a peleja alcança novos leitores, promovendo o casamento antes inimaginável da tecnologia com a tradição.

Pedidos: Tupynanquim Editora

E-mailtupynanquimcordelbrasil@gmail.com

Trechos selecionados:

SEXTILHAS

Marco Haurélio
Dos poetas que conheço,
Destaco Braulio Tavares,
Pelas canções instigantes,
Pelos versos singulares,
Que têm o cheiro dos épicos
E das gestas milenares.

Bráulio Tavares
Eu destaco, entre os meus pares,
o poeta Marco Haurélio
com o vocabulário vasto
do Houaiss ou do Aurélio,
e o verso que sobe aos ares
igual um balão de hélio.

MH
Já que começou o prélio,
Meu amigo menestrel,
Com sua verve e sabença,
De quem à arte é fiel,
Responda, sem titubeio,
O que vem a ser cordel?

BT
Inspiração a granel,
Contos de fadas, de reis,
Cangaceiros, cantadores,
Pelejas e ABCs,
Tudo isso num livrinho
De 11 por 16.

MH
Tem versos de amor cortês,
Forjados com muito enlevo;
Nas cantigas que compões,
E nos romances que escrevo,
Vejo o futuro agarrado
Nas barbas do Medievo.

BT
É livre igualmente o frevo;
É nosso como o baião;
É clássico como a valsa;
Popular como o rojão;
Tem música, tem poesia,
Verdade, imaginação.


MH
É o canto do sertão,
Das cidades e das serras.
A voz que clama por paz,
O grito que cessa as guerras,
Nordestino e brasileiro,
Com ecos de longes terras.

BT
Tu certamente não erras
ao dizer que essa poesia
não tem somente beleza:
tem coragem e alegria
e entre os dramas do mundo
nos serve de luz e guia.

MARTELO AGALOPADO

BT
Sou menino criado na cidade
Nunca tive uma infância na fazenda
O sertão para mim foi uma lenda
Que pairou sobre a minha mocidade.
Conheci o sertão, isto é verdade,
Assistindo o cinema brasileiro;
Glauber Rocha me deu esse roteiro
E eu que sou bom aluno fui atrás...
Os chocalhos são sinos matinais
Nas dolentes canções do bom vaqueiro.

MH
E eu nasci numa casa de adobão,
Com a frente pintada de amarelo;
Era ali minha choça e meu castelo,
O meu reino encantado do sertão.
Escutando as canções de Gonzagão,
Mais as joias do nosso romanceiro,
Na varanda ou ao pé do juazeiro,
Espargidas por ventos ancestrais –
E os chocalhos são sinos matinais
Nas dolentes canções do bom vaqueiro.

BT
Lembro o carro de boi gemendo tanto
sob o fogo do sol do Cariri,
Muitas férias passei brincando ali
onde o sol cauteriza um solo santo.
Mas a noite descia com seu manto,
agasalho tão bom e hospitaleiro...
Eu dormia, acordava bem ligeiro
a ouvir badaladas lá por trás:
os chocalhos são sinos matinais
nas dolentes canções do bom vaqueiro.

MH
Desta imagem também jamais me esqueço:
Velho carro de boi com seu rangido:
Era alegre, era triste, era um gemido,
Cantilena sem fim e sem começo,
E a parelha seguia sem tropeço
Ao comando bem firme do carreiro.
Se hoje o carro apodrece no terreiro,
O carreiro é que geme em tristes ais:
Os chocalhos são sinos matinais
Nas dolentes canções do bom vaqueiro.


GEMEDEIRA

MH
Geme o país que nasceu
Da esperteza de Cabral;
Geme o pendão auriverde
Sob a triste bacanal;
Geme o índio, geme o negro
Ai! ai! ui! ui!
Nessa terra desigual.

BT
Todos gemem por igual
Nestas redes sociais,
Muro das lamentações
Onde todos são iguais:
Disputando com vaidade
Ai ai, ui ui
Para ver quem geme mais.

MH
Geme nos canaviais
O trabalhador exangue;
Geme o home-caranguejo
Soterrado sob o mangue;
Geme ainda o operário
Ai! ai! ui! ui!
Que morre cuspindo sangue

BT
No meio do bangue-bangue
Todo mundo chora e treme,
Pelos becos da favela
Passa bandido e PM
Uns que matam, uns que morrem
Ai ai, ui ui
Porém todo mundo geme.


GALOPE À BEIRA-MAR

MH
Mudando de estilo, por outras paragens,
Sigamos agora com nossa peleja:
Da grimpas dos Andes à chã sertaneja,
O verso permite diversas viagens.
Sem Timothy Leary a encher as bagagens,
Com fome e com sede do eterno buscar,
Nas tábuas de argila, nas mesas do bar,
Na longe Cocanha ou na caixa-prego
Na luz escondida nos olhos do cego,
Nos dez de galope na beira do mar.

BT
A rima deixada é a mesma que eu pego,
E ligo o motor pra subir nas alturas,
Nas asas do vento das literaturas
Eu vôo e eu nado, mergulho e navego.
Meu verso é composto de peças de Lego
É só ir pegando e depois encaixar
Formando um conjunto que dê pra cantar
Dizendo as belezas do mundo da escrita
Em verso e em prosa se escreve e recita
Cantando galope na beira do mar.

MH
Na velha Tebaida, me fiz eremita,
De lá alcei voo pra os mares do sul,
Vi Constantinopla virar Istambul,
E a sanha cruzada na terra ‘bendita’;
Vi Fitzcarraldo, com grande pepita,
Na verde floresta querer navegar,
Cantando uma loa para o rei Lear,
Pensando se estava tão longe ou tão perto.
Cansado de tudo, voltei ao deserto,
Sonhando que estava na beira do mar.

BT
Tornei-me famoso por ter descoberto
os grandes tesouros de terras distantes;
lutei contra gregos, salvei os atlantes,
mostrei a Colombo o caminho mais certo.
Na Besta Fubana do tal Luís Berto
montei corajoso e me pus a voar,
cruzando o espaço na luz do luar
por entre uma nuvem de naves e drones
igual um dragão de um Game of Thrones
cantando galope na beira do mar.

MH
Na terra tomada por fogo e ciclones,
Sorri o tirano de juba acaju,
Sentindo no rabo o tridente de Exu,
Enquanto se estorce na guerra dos clones;
E sobre as ruínas não há cicerones,
Nem sheiks barbudos e nem lupanar.
A paz posta a ferros, a guerra a gritar
E agentes laranjas trazendo pavor,
Deixando giestas na cova do amor
Nos dez de galope na beira do mar.

BT
País que se preza não quer salvador
Nação com moral não precisa de heróis
Precisa de votos, precisa de voz,
Lutando, cantando, do jeito que fôr.
Na hora difícil se sente o valor
Do quanto se perde e não pode salvar,
A guerra é a guerra, a terra é o lar,
O chão é do povo, a vida é da gente,
O mundo é cruel, mas a alma é valente
Nos dez de galope na beira do mar.


NO TEMPO DE PAI TOMÁS
PRETO VELHO E PAI VICENTE

MH
Caro poeta,
Afine a sua viola,
Busque dentro da cachola
A resposta mais certeira.
Nossa bandeira
Do cordel e do repente
É ampla e é abrangente:
Muitas novidades traz
No tempo de Pai Tomás
Preto Velho e Pai Vicente.

BT
Tô acordando
Dum sono bom e profundo
Retornando para o mundo
Pra ver o que acontece;
E me aparece
Marco Haurélio pela frente
Com um “balai” de repente,
Com cara de quem quer mais
No tempo de Pai Tomás
Preto Velho e Pai Vicente.



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Auto da Compadecida e a literatura de cordel


Por: Marco Haurélio


Foi num folheto de gracejo que Ariano Suassuna encontrou o personagem-símbolo de sua dramaturgia. As Proezas de João Grilo (ver trecho abaixo), história escrita em 1932 por João Ferreira de Lima, trazia como protagonista o célebre amarelinho oriundo dos contos populares portugueses, que, no processo de aculturação, ganhou características idênticas às de outro famoso espertalhão de origem ibérica: Pedro Malazarte. Esse mesmo João Grilo será reaproveitado no Auto da Compadecida, transformado em filme em 2000 por Guel Arraes, com Mateus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Melo (Chicó) nos papéis principais.

João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria,
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

(...)

Na noite que João nasceu,
houve um eclipse na lua,
e detonou um vulcão,
que ainda continua.
Naquela noite correu
um lobisomem na rua.

(...)

Entretanto, a Compadecida se baseia em três folhetos distintos, dois deles escritos por Leandro Gomes de Barros. O primeiro é O Cavalo que Defecava Dinheiro, que mostra como um finório consegue lograr um duque invejoso convencendo-o de que um cavalo é realmente capaz de obrar (sem trocadilho) o prodígio do título. Obviamente quem assistiu à peça ou à uma de suas versões para o cinema, sabe que o cavalo foi transmutado num gato, por motivos mais que compreensíveis. O outro poema de Leandro reaproveitado por Suassuna é O Dinheiro (O Testamento do Cachorro), onde aparecem as figuras do padre e do bispo. A autoria de Leandro é inquestionável, embora a origem dos motivos que compõem a estória seja mais difícil de rastrear. O próprio Ariano reconhece essa dificuldade quando afirma: “- a história do testamento do cachorro, que aparece no Auto da Compadecida, é um conto popular de origem moura e passado, com os árabes, do Norte da África para a Península Ibérica, de onde emigrou para o Nordeste”.

Além destes dois poemas de caráter marcadamente cômico, o Auto propriamente dito – a última parte – tem por base o folhetoO Castigo da Soberba, de autoria desconhecida, embrora alguns atribuam-na a Silvino Pirauá de Lima. A história tem a marcante presença do imaginário medieval que impregna a obra de Gil Vicente, outra evidente fonte de Suassuna. Maria (Nossa Senhora) é a advogada. Jesus o Juiz, e o Diabo o acusador. É a Nossa Senhora – a “advogada nossa” da oração Salve Rainha – que a alma recorre, em vista da iminente condenação. Evocada em nome de seu bendito filho, ela responde à súplica da alma. No final, após ouvir acusação e defesa, Jesus – no folheto também chamado Manuel – decide pela salvação da alma. O Diabo (Cão), vencido, chama os seus comandados. A estrofe abaixo reproduzida, com a última fala do tinhoso, está bem próxima do desfecho do Auto da Compadecida:

Vamos todos nós embora
Que o causo não é o primeiro,
E o pior é que também
Não será o derradeiro...
Home que a mulher domina
Não pode ser justiceiro.

Os três folhetos, diga-se de passagem, foram coligidos por Leonardo Mota no livro Violeiros do Norte. Indiretamente, este pesquisador cearense, ao reunir as três obras em seu precioso estudo, apontou o caminho que Ariano Suassuna deveria seguir, mesmo apoiando-se em outras tradições populares – especialmente o Bumba-meu-boi, onde os personagens Mateus e Bastião cumprem um papel semelhante ao de João Grilo e Chicó na Compadecida.

João Grilo marcou presença em outros folhetos de cordel, com destaque para O Professor Sabe-Tudo e as Respostas de João Grilo (de Klévisson Viana), A Professora Indecente e as Respostas de João Grilo (de Arievaldo Viana, João Grilo, um presepeiro no palácio (de Pedro Monteiro) e Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo (de Marco Haurélio). O sucesso do Auto da Compadecida no cinema parece ter motivado o diretor Moacyr Góes a filmar O Homem que desafiou o Diabo (2007), baseado no livro As Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, que, por sua vez, parte de folhetos de cordel do ciclo do Demônio Logrado.


Publicado originalmente em Cordel Atemporal

sábado, 16 de dezembro de 2017

Xilogravuras de Lucélia Borges



Teiú (ou Tejo)
Lucélia Borges, natural de Serra do Ramalho (BA), mas radicada em São Paulo, uma das idealizadoras do projeto Cordel: a Poesia Encantada do Sertão, agora dedica-se à arte da xilogravura. Seu trabalho homenageia a cultura popular e as crenças e costumes de nosso povo. Recentemente, ilustrou para Pedro Monteiro, poeta piauense, o folheto A Lenda do Cabeça de Cuia. Seus mestres na xilogravura foram Stenio Diniz, Jô Oliveira, Valdeck de Garanhuns e Regina Drozina. 

Abaixo, algumas das artes de Lucélia.


Festa brasileira (releitura de Luciano Tasso).

Luiz Gonzaga (releitura de desenho de Jô Oliveira). 

Barbatão
Capa do cordel A Lenda do Cabeça de Cuia, de Pedro Monteiro.


Ilustração para cordel de Pedro Monteiro.
Indecisão: xilo colorida
Pavão Misterioso (matriz)
Xilogravura para capa de folheto de José Walter Pires. 
Recebendo o aval do mestre J. Borges. 


A artista na Editora Nova Alexandria.


Contatos:

Lucélia Borges
E-mail: luceliapardim@gmail.com
Fone: (11) 98597-4133

domingo, 8 de outubro de 2017

Livro de Marco Haurélio é finalista do Prêmio Jabuti


Cordéis de arrepiar é uma coleção da editora IMEPH, de Fortaleza, criada por Arlene Holanda e coordenada por ela e pelo poeta Rouxinol do Rinaré. Reúne contos e lendas populares da tradição oral de vários povos nos quais predomina a temática do medo e do sobrenatural. Os primeiros volumes, África América, foram escritos por Rouxinol do Rinaré e seu irmão, Evaristo Geraldo, e ilustrados por Edu Sá. O terceiro volume, com contos disseminados pelo continente europeu, numa vasta área que vai da Irlanda à Rússia, conta com três textos do poeta e pesquisador da literatura popular, Marco Haurélio. Esta inusitada coletânea está entre as dez obras finalistas ao Prêmio Jabuti 2017 na categoria Adaptação.

Teig O’kane e o Cadáver é um conto sobrenatural que William Butler Yeats (1865-1939), poeta e coletor das tradições populares de seu país, a Irlanda, incluiu na coletânea Fairy and Folk Tales of the Irish Peasantry (Contos de fadas e folclóricos da Irlanda rural). A presença dos anões transportando o cadáver é o traço cultural celta mais evidente. É preciso ressaltar que a palavra fada, que remete, em latim, ao destino, fatum, se aplica aos anões, verdadeiros agentes da transformação por que passa o protagonista em sua jornada noturna. A estrofe inicial já remete à prova a que se submeterão protagonista:

Quem anda na senda escura,
Com passo ligeiro ou tardo,
Terá de levar um dia
Da vida o pesado fardo
E, após mirar o rival,
Sentir em si mesmo o dardo.

História do Filho Ingrato é um conto de exemplo que aparece em coletâneas europeias antes do século XIV, conforme Bráulio do Nascimento (Estudos do conto popular. Em sua versão mais famosa, o filho expulsa o pai de casa, oferecendo-lhe apenas uma manta para que se cubra. O filho ainda pequeno do ingrato pede ao avô a manta, divide-a no meio e diz ao pai que guardará aquela parte para quando chegar vez dele. O motivo, corrente na tradição oral do Brasil, inspirou um clássico da música sertaneja, “Couro de boi”, composto por Teddy Vieira. O conto adaptado para o cordel foi recolhido na Alemanha pelos Irmãos Grimm, que o publicou em sua coletânea Contos da criança e do lar.


Marúsia e o Vampiro é conto de horror mesclado a elementos de narrativas maravilhosas, a exemplo do episódio da morte e renascimento da heroína, presente em inúmeras histórias, a mais antiga delas “Os dois irmãos”, conto egípcio de mais de três mil anos. O vampiro do conto de que nos servimos, coletado por Aleksandr Afanas’ev (1826-1871) e incluído nos Contos de fadas russos, difere do personagem massificado pelo cinema a partir do romance gótico Drácula, do escritor irlandês Bram Stoker, publicado em 1897. Os povos eslavos (búlgaros, montenegrinos, bósnios, sérvios etc.) conheciam muitas classes de vampiros, mesmo antes da conversão de muitos deles ao cristianismo ou ao islamismo. A origem da crença em vampiros é obscura, mas se enquadra no medo ancestral incutido pelo possível retorno de um defunto que, para conservar uma ilusória sobrevida, se alimentava de fluidos vitais.

Autor: Marco Haurélio
Ilustração: Edusá
Edição: 1ª
Valor: R$ 40,00
Formato: 18 x 24 cm
Número de páginas: 40
ISBN: 978-85-7974-316-0

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Cordel encanta Serra do Ramalho



Desde o dia 23 de junho, o município de Serra do Ramalho, localizado no Médio São Francisco, sertão da Bahia, viveu uma efervescência cultural como havia muito não se via por estas bandas. Na véspera e no dia de São João, foi encenada a cavalhada na comunidade de Agrovila 07, no pátio da igreja, com a recriação das batalhas entre mouros  e cristãos na Península Ibérica, tendo como protagonista o imperador Carlos Magno. Na cavalhada teatral, o maior auto popular a céu aberto, os partidos cristão (azul) e mouro (encarnado) lutam pela honra e pela princesa Angélica, filha do rei da França. Em Serra do Ramalho, o evento acontece, principalmente, pela força de vontade de José Carlos, que interpreta o rei mouro, e é mestre da cultura popular. O rei cristão é interpretado por Ismael.

Nos dias 25 e 26, na Escola Castro Alves, foram realizadas as oficinas de cordel, com presença dos professores e demais interessados. O ministrante foi o poeta popular, escritor e pesquisador da cultura popular brasileira Marco Haurélio, que, durante mais de 15 anos morou em Serra do Ramalho, cidade para onde se mudou ainda criança, na década de 1980. No segundo dia, a oficina teve o reforço de dois outros poetas participantes do projeto Cordel: a poesia encantada do sertão: Rafael Neto e Zeca Pereira.


No sábado, dia 27, às 10 da manhã, foi inaugurada a cordelteca Antônio José dos Santos (Tio Tony), homenagem ao grande divulgador da poesia popular em Serra do Ramalho, morto precocemente em 2014. Tio Tony era poeta e radialista e estava escalado para participar, como declamador, no nosso projeto. A família do poeta, representada por suas irmãs Clarice, Maria, Ana e pela sobrinha Cláudia, prestigiaram a homenagem. A cordelteca, que agora faz parte da Biblioteca Municipal Arcélia Alves de Barros, traz títulos de autores clássicos e contemporâneos, incluindo obras dos autores que participaram do projeto: Marco Haurélio, José Walter Pires, Rafael Neto e Zeca Pereira.

À noite, ainda no dia 27, ocorreu a culminância do projeto, o Encontro Sertanejo de Cordelistas, no Centro de Treinamento de Líderes (CTL), com a participação dos poetas populares e boa presença de público. Cordel, repente, aboios e causos fecharam com chave de ouro uma jornada inesquecível.

Os depoimentos de dois participantes do projeto, o professor Rogério Soares e o poeta José Walter, não deixam dúvidas.
"Sábado, 27/06, em Serra do Ramalho, município localizado nas barrancas do Velho e agonizante São Francisco, a 300 Km de Brumado, no Encontro de Cordelistas, evento produzido por Itamar Mendes, merecedor de aplausos por tudo de bom que lá aconteceu, reunindo Cordelistas, outros poetas, com destaque para o poeta da terra Marco Haurélio, nome que brilha no cenário nacional como um respeitado pesquisador do cordel, além do poeta com inúmeras obras publicadas, a presença do poeta Zeca Pereira, o andarilho do cordel, o repentista de Paulo Afonso, Rafael Neto e este poeta aprendiz, que escreve estas linhas, com apresentações na Biblioteca Municipal da Cidade, na manhã e á noite no espaço do CTL, com o brilhantismo das declamações, sobretudo, do poeta Rafael que brindou o público presente com os seus repentes, causos, histórias que encheram a noite amena de muita alegria. Retornei feliz com a receptividade, com a minha participação entre esses renomados poetas e carregado de indagações a respeito da nossa cultura. Só quem corre risco, que viaja, que conhece outros poetas, escritores, que enfrenta críticas, que foge aos estreitos limites da arte que produz, poderá dimensionar o seu valor literário em um cenário onde pontilham estrelas verdadeiramente luminosas. E aqui cabe lembrar o nosso vate maior, o poeta condoreiro, quando profere com os seus arroubos de vaidade: " Sou pequeno, mas só fito os Andes/Sou cego, mas só peço luzes". Salve o cordel encantado! Salve a cultura sertaneja! Salve Serra do Ramalho, que pode contar com o idealismo de uma pessoa como Itamar Mendes e possuir nas suas entranhas um poeta da estirpe de Marco Haurélio de quem tenho a honra de merecer a estima e amizade. Sei que o meu amigo Rogério, de Caetité, fará novas publicações como o seu profissionalismo e zelo pela arte fotográfica."

José Walter Pires, poeta cordelista

"Serra do Ramalho é um celeiro de manifestações populares. Entre os dias 23 e 24 de junho é realizado na Agrovila 07 o Auto a céu aberto da Cavalhada. Esse teatro mostra a conversão dos mouros pelos cristãos em uma encenação de cores e muita destreza equina. O enredo da festa é tomado de empréstimo do livro Carlos Magno e Os Doze Pares da França. Abaixo algumas fotos que tive a oportunidade de fazer durante a celebração popular. Fica aqui o meu agradecimento aos colegas Marco Haurélio, Lucélia Pardim Guarani Kaiowá e Itamar Mendes que este ano me convidaram para assistir o folguedo popular. De vermelho o rei mouro, de azul o rei cristão."
Rogério Soares de Brito, professor,  orientador pedagógico do projeto “Cordel: a poesia encantada do sertão”

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